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YVY KORA: Guerreiros Sagrados

A história em quadrinho de fantasia e aventura de um jovem nativo indígena de um Brasil fictício do século XV antes da da sua descoberta e colonização.

Castanhal/PA

Sobre

Trajetória

**Capítulo 1 – O Silêncio e a Promessa**

A floresta não era apenas o lugar onde Rudá morava; ela era o seu próprio mundo. Aos dez anos de idade, o garoto nativo carregava a própria essência da mata na pele parda e no cabelo cor de mel, perfeitamente cortado em formato de cuia com a nuca raspada. Seus olhos castanhos, pequenos e puxados, brilhavam com a vivacidade de quem conhece cada palmo de chão. Vestido apenas com uma singela tanga tecida de cipós e folhagens, ele crescera sob o compasso calmo daquela terra. A vida na pequena tribo, cravada no coração mais profundo da selva, corria serena, ditada pelo sussurro do rio e pelo eco perene das cachoeiras distantes.

Até o dia em que a floresta, de repente, emudeceu.

Não era um silêncio de paz. Era um presságio sombrio que congelava o ar. Das sombras da vegetação fechada, o caos rompeu a clareira. Um bando de aproximadamente cinquenta queixadas selvagens invadiu o território. À frente deles marchava um alfa que parecia desafiar as próprias leis da natureza: um porco-do-mato gigante, com impressionantes um metro e oitenta de altura e dois metros de comprimento de pura fúria e músculos.

Aquilo não era uma ameaça comum; era uma força de destruição. O bando fixou território nos arredores da aldeia, devorando e esmagando tudo o que encontrava. Roças inteiras de mandioca foram reduzidas a lama fotossintética. O estrépito dos cascos pesados e os grunhidos aterrorizantes espantaram os peixes e afugentaram a caça. A fome, silenciosa e cruel, começou a rondar as ocas.

Ao cair da noite, o pavor na tribo transformou-se em determinação. Homens e mulheres reuniram-se sob a penumbra da oca central. À luz trêmula das fogueiras, rostos pintados e tomados pela preocupação traçavam planos. Desenharam uma emboscada definitiva. As feras cairiam ao amanhecer.

***

Quando os primeiros raios de sol cortaram a densa copa das árvores, dez caçadores partiram. Movendo-se como sombras entre as sombras, não perceberam que o pequeno Rudá os seguia. O garoto mantinha a distância exata, pisando onde as folhas já estavam secas, impulsionado por uma curiosidade que superava o medo.

Ao alcançarem o território dominado pelos monstros, Rudá rastejou até a proteção de arbustos espessos. Dali, prendeu a respiração ao ver os guerreiros agirem. Cabos de cipós foram esticados entre os troncos e camuflados na terra úmida. Então, o confronto começou.

A batalha foi um turbilhão sangrento de gritos, sangue e terra batida. A ferocidade dos queixadas era avassaladora. Um a um, os caçadores foram golpeados; alguns perderam a vida ali mesmo, reduzindo o grupo a apenas quatro sobreviventes. Ainda assim, a coragem dos homens prevaleceu sobre a matilha, deixando no chão o bando abatido. Restava apenas o temível alfa.

Agindo em sincronia perfeita, os quatro sobreviventes lançaram cipós grossos e extremamente resistentes. As cordas laçaram as patas do gigante, e as extremidades foram rapidamente amarradas em troncos firmes. Imobilizado, o monstro rugia enquanto lanças arremessadas à distância perfuravam seus flancos. Contudo, mostrando-se infinitamente mais astuto e perigoso do que seus semelhantes, o grande porco-do-mato desabou no chão. Os olhos fecharam-se. Ele fingiu a própria morte.

O descuido veio com a exaustão. Quando os quatro guerreiros se aproximaram para conferir o abate, o monstro despertou. Tomado por uma fúria renovada, o gigante tensionou os músculos e arrebentou os cipós com um estalo violento. O caos reinou novamente. Com uma força brutal, a criatura investiu contra os caçadores. Homens experientes na arte da guerra foram jogados para o alto, feridos e subjugados em questão de segundos.

O monstro bufou, a saliva misturada ao sangue escorrendo pelas presas afiadas. Ele se posicionou acima do último caçador caído, preparando-se para o golpe final.

— Ei! Aqui! — um brado infantil cortou o ar da clareira.

Rudá emergiu da mata. O coração batia na garganta, mas ele gritava com todas as forças para atrair a atenção da fera, arremessando pedras pesadas contra a cabeça do monstro. Irritado com a audácia, o gigante mudou de alvo. Seus cascos cavaram a terra e ele avançou com a velocidade de um raio. Por puro reflexo e agilidade juvenil, o garoto saltou para o lado, sentindo o vento do impacto passar a centímetros de seu corpo.

***

Sozinho na clareira, com as mãos miúdas tremendo violentamente, Rudá recusou-se a correr. Um sentimento inabalável e ancestral guiou seus olhos até o chão: a poucos centímetros de seus pés, estavam o arco e as flechas de um dos caçadores caídos.

Ele se ajoelhou e apanhou a arma de madeira escura. Puxou a corda de fibra com toda a força que seus braços de dez anos conseguiam reunir, mirou e disparou.

Uma, duas flechas riscaram o ar. O som das pontas de pedra batendo contra o couro grosso do animal ecoou na clareira. Mas a pele era como rocha; as flechas mal arranharam a superfície, servindo apenas para incendiar o ódio da criatura. Com os olhos injetados de sangue, o monstro bufou uma névoa quente e investiu diretamente contra a criança.

O impacto foi devastador. No último milésimo de segundo, Rudá ergueu o arco numa tentativa desesperada de defesa. A cabeçada violenta da fera partiu a madeira firme ao meio e arremessou o menino pelo ar.

Zonzo, com a visão borrada, Rudá colidiu fortemente contra uma parede de pedra colossal. Ao tentar se levantar, as pernas falharam. Ele olhou para os lados: estava encurralado, sem rotas de fuga. À sua frente, o monstro raspava os cascos na terra, abaixando a cabeça para o bote derradeiro. O medo congelou o sangue do menino. Paralisado, ele apenas apertou contra o peito os dois pedaços inúteis do arco quebrado. Ele fechou os olhos.

Foi quando o destino interveio.

Uma sombra imensa projetou-se do topo da grande rocha. Dela, silenciando o próprio vento, saltou um homem.

Não era um guerreiro comum. Era um combatente alto, imponente, cujos músculos pareciam esculpidos na própria árvore do jacarandá. Trazia no rosto as cores vivas e assustadoras da pintura de guerra da Tribo Uiraçu — o lar dos guerreiros mais temidos e lendários de toda a região norte, o povo Anhykuara. Adornos de penas de aves de rapina estendiam-se por seus braços, contando a história de incontáveis vitórias.

O guerreiro cortou o ar em um salto mortal perfeito. Com a precisão mortal de um Gavião Real, ele desceu desferindo um único, seco e certeiro golpe de tacape na cabeça do animal.

Um estalo ecoou pela clareira, seguido pelo som pesado do corpo de um metro e oitenta desabando na terra úmida. A fera estava morta. O silêncio, finalmente, retornou à floresta.

Rudá permaneceu estático contra a rocha. Seu peito subia e descia em uma respiração descompassada; o coração martelava contra as costelas como se quisesse escapar. Mas o pavor cedeu espaço para algo novo, avassalador. Seus olhos, ainda marejados pelo susto, passaram a brilhar com uma admiração pura.

Ainda ofegante, encontrando uma firmeza que desconhecia em si mesmo, o garoto quebrou o silêncio:

— Quem... quem é você? — a voz de Rudá saiu trêmula, mas ecoou com respeito. — Obrigado por me salvar.

O homem parou. Lentamente, virou o rosto imponente na direção do garoto. Seu semblante era sério, endurecido pelas provações da selva. Mas, ao encarar as brasas de determinação que queimavam nos olhos de Rudá, permitiu que um leve sorriso de soslaio surgisse em seus lábios pintados de urucum.

— Sou um guerreiro da Grande Tribo Harpytã — respondeu o homem, sua voz ressoando como um trovão baixo. — Estava de passagem quando a floresta me avisou do perigo. Pelo que vi aqui, pequeno... você tem a astúcia e o espírito necessários para se tornar um grande guerreiro um dia.

O homem deu um passo à frente, fixando o olhar no menino.

— Quando você completar quinze ciclos de sóis, caso seu coração ainda deseje o caminho das armas, parta em busca do povo Anhykuara. Procure por mim. Será uma honra treiná-lo.

Sem dizer mais uma única palavra, o guerreiro deu-as costas. Com um movimento fluido, ele saltou para entre a folhagem fechada e, como uma miragem, fundiu-se novamente à imensidão da mata.

Rudá continuou olhando para o ponto exato onde o homem havia desaparecido. As palavras do caçador misterioso ecoavam em sua mente não como um conselho, mas como uma promessa ao universo. O jovem limpou o suor da testa e fez o seu próprio voto silencioso, olhando para o horizonte verde:

— Quando eu atingir meus quinze anos... vou seguir rumo à tribo Harpytã para me tornar o maior guerreiro que esta terra já viu.

E ali, sob o teto de copas centenárias da floresta e diante do sangue derramado daquela batalha, nascia a lenda de Rudá.

Atuação

Áreas

  • Arte Visual
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